AS INSÍGNIAS IMPERIAIS DO IMPERADOR MAXÊNCIO

Em 2006, arqueólogos italianos anunciaram uma notável descoberta em uma vala escavada em um pequeno templo na colina do Palatino, em Roma, onde, durante o período imperial romano, foram construídos as moradias dos imperadores romanos (em verdade, devido a este fato, “palácio” é uma palavra derivada do nome da colina do Palatino).

Vide o link da notícia: http://www.nbcnews.com/id/16031991/ns/technology_and_science-science/t/rare-insignia-constantines-foe-found/

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Foram encontrados, no interior dos restos de caixas de madeira, aparentemente envolvidas em fragmentos de seda, objetos parecidos com 3 lanças , 4 dardos, os quais aparentemente serviriam como base para algum objeto, 3 esferas coloridas de vidro e calcedônia, além de uma haste com aparência de ser um cetro, em cuja ponta havia uma flor estilizada segurando um globo verde-azulado (caracterizando uma representação bem acurada da forma e da cor verdadeira do globo terrestre).

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( A foto 1 mostra as lanças e a reprodução da sua aparência original. A foto 2 mostra a ponta do cetro com o globo de calcedônia)

Os arqueólogos estimaram que a camada onde os objetos foram encontrados remetia ao fim do século III D.C. e o início do século IV D.C., o que foi confirmado pela datação de carbono 14 dos restos de linho.

Concluiu-se. portanto, que efetivamente os objetos eram um cetro e lanças porta-estandarte imperiais, sendo que a data e o contexto em que os artefatos foram encontrados permitem também considerar que se tratam das insígnias imperiais do imperador romano Maxêncio, filho do imperador Maximiano, e que, após a abdicação do imperador Diocleciano e de seu pai, disputou o trono contra outros imperadores, culminando com a sua morte na Batalha da Ponte Mílvio, em Roma, conflito no qual ele foi derrotado por Constantino, o Grande, em 312 D.C.

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(Ponte Mílvio, em Roma, foto de Anthony Majanlahti )

Assim, as insígnias de Maxêncio deven ter sido escondidas por algum partidário fiel, para evitar que fossem capturadas por Constantino.

Moedas do período em questão mostram insígnias imperiais muito semelhantes as encontradas no Palatino, sendo estas os únicos itens da regalia imperial romana a chegarem até os nossos dias, motivo pela qual devem as mesmas serem admiradas com reverência, e quem quiser pode visitá-las no Museu Nacional Romano, no Palácio Massimo, em Roma, onde hoje elas se encontram expostas.

 

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(Relevo da Apoteose de Antonino e Faustina. A imperatriz segura um cetro parecido com o encontrado no Palatino – Römisch-Germanisches Zentralmuseum, Mainz)

 

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(Moeda cunhada por Maxêncio

 

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UM BANQUETE ROMANO

banqueteromano #symposium #triclinium

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O mosaico da foto acima, que hoje faz parte do acervo do museu do Chateau de Boudry (foto copiada do site “http://www.chateaudeboudry.ch”) é um dos mais extraordinários mosaicos romanos que sobreviveram. Ele data do século V D.C. e acredita-se que seja originário da Síria.

Trata-se, provavelmente, de uma das melhores representações de como era um banquete da elite romana. Nele podemos ver a disposição do triclinium, aposento equivalente à sala de jantar das grandes residências modernas. Este nome é devido aos três leitos dispostos em forma de “U”, onde os convivas  comiam reclinados. O aposento tem uma porta de madeira, que deve dar para a cozinha, e uma entrada maior, com cortinas, que deve dar para um peristilo, pátio rodeado de colunas com um agradável jardim, geralmente com fontes, no centro, como era padrão em uma domus romana.

O normal é que cada sofá ou dossel do triclinium acomodasse três pessoas, perfazendo um evento para nove pessoas, mas grandes triclinia  já foram encontrados em escavações, os quais, certamente, poderiam acomodar muito mais conjuntos de três leitos,  e portanto, os seus proprietários poderiam receber um grande número de convivas.

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No mosaico, os convivas são servidos de vinho pelos escravos, os quais, exceto o que está em primeiro plano, usam um corte de cabelo rapado com uma espécie de mecha ou chuca comprida). A comida é servida em três banquetas trípodas, do tipo das que já foram recuperadas em Pompéia e Herculano. Alguns comensais estão bem à vontade, dando a entender que já beberam bastante…

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Também na cena retratada, os serviçais estão preparando vinho quente (vin chaud), ainda hoje consumido no inverno na Europa, o que pode ser constatado pela imagem do escravo enchendo a jarra em uma espécie de samovar, bem no canto direito do mosaico. Mas pode ser também que o líquido seja água quente, pois sabemos que também se costumava adicioná-la ao vinho (porém, os romanos no verão também apreciavam o oposto: beber vinho misturado com neve trazida dos picos das montanhas).

O primeiro prato ou prato principal acaba de ser servido: frangos inteiros assados (e provavelmente estufados com os recheios mais surpreendentes, provavelmente bem picantes) e podemos ver que o convidado de cabelo e barba grisalha já se apressou em pegar uma coxa…

A cena mais chamativa do mosaico, entretanto, é o chão salpicado de restos do que devem ter sido pratos de entrada: Folhas de verduras, peixes, camarões, lulas, conchas de moluscos, etc. E, aproveitando a fartura dos restos no piso, um gato e um camundongo aproveitam para garantir a sua parte…

Esse tema do nosso mosaico de maneira nenhuma é original. Ele faz parte de um estilo comum no Mundo Helenístico, que foi apelidado de asarotos oikos (“chão não varrido”),  e do qual sobraram vários exemplos, como o da foto abaixo. Em nossa opinião, o propósito dessas representações era retratar a fartura das recepções dadas e lembrar aos observadores que o sucesso do banquete retratado no piso estava a se repetir novamente, como os comensais perceberiam ao olharem para o chão. Ou, quem sabe, o tema fosse uma forma bem-humorada de pedir que os convivas não fizessem tanta sujeira…

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Parece que a quantidade dos restos no chão e a presença dos camundongos de maneira nenhuma chocavam os romanos. Certamente, um anfitrião próspero teria que ter um time de escravos suficiente para deixar tudo limpo ao fim do banquete. Mas é possível que alguma obra literária antiga forneça mais alguma explicação para a recorrência do tema (era também comum que os mosaicos trouxessem temas de obras literárias famosas ou do cotidiano, tais como jogos de gladiadores, corridas, caçadas, etc.).

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Os encontros onde ocorriam os banquetes recebiam o nome genérico de convivium (palavra latina que originou a palavra convívio, em português, e com o mesmo sentido).

Os banquetes públicos eram chamados de epulum e costumavam ser oferecidos pelo Estado ou por políticos, normalmente para marcar alguma festividade religiosa ou celebrar vitórias. Júlio César, por exemplo, ficou célebre pela suntuosidade e grandiosidade dos banquetes públicos que ele patrocinou. A História, inclusive, registra que César ofereceu o primeiro banquete público em Roma no qual foram servidos quatro tipos de vinhos diferentes.

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Os banquetes privados eram oferecidos nas residências, normalmente jantares (Cena) onde o anfitrião se esmerava em impressionar os convidados com pratos exóticos e o serviço de mesa mais rico que ele pudesse adquirir. Nos arredores de Pompéia, foi encontrado o magnífico “Tesouro de Boscoreale” (nome da vila onde ele foi escavado), um serviço de mesa completo com baixelas e taças de prata ricamente decoradas.

Mas, em outras regiões do antigo Império Romano, foram descobertos também serviços de mesa tão fabulosos quanto os de Boscoreale (como por exemplo, o “Tesouro de Middenhall”, na Inglaterra), que, na época do Baixo Império Romano, foram propositalmente enterrados pelos proprietários para que não fossem saqueados pelos bárbaros .

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Não menos espetaculares que os serviços de mesa de prata são os fabulosos  recipientes de vidro, produzidos com uma técnica requintada que faria inveja aos artesãos da atual Murano.

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Muito provavelmente, todo esse aparato era guardado para ser utilizado nos banquetes, pois, para as refeições cotidianas, os romanos costumavam usar as peças feitas de cerâmica do tipo “terra sigilata“, como, por exemplo, a taça do tipo scyphus abaixo.

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Note-se que o talher mais usado eram as colheres. Facas e garfos raramente são encontrados em escavações e parece que não eram comuns. Provavelmente. os alimentos ou porções eram servidos para serem consumidos com as mãos, sendo as colheres utilizadas apenas para alguns alimentos, como papas, pastas, cremes, ovos, ostras, sopas, molhos, etc.

Note-se que as mesas trípodas encontradas nas escavações e retratadas nos afrescos e mosaicos parecem pequenas para acomodar tantas travessas com comida. Provavelmente, os escravos ficavam levando as baixelas até os convivas, que pegavam o que queriam.

Ao contrário do que acontecia nos symposia gregos, nos banquetes romanos, as mulheres também eram comensais (no symposium, elas somente podiam participar como cantoras, músicas ou dançarinas, entretendo os convivas, ou, no máximo, como hetairas, que eram cortesãs algo similares às gueixas japonesas). Já as romanas participavam dos banquetes em igualdade com os homens, reclinando-se ao lado deles e conversando animadamente).

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Durante o banquete

As refeições romanos incluíam normalmente três pratos: a entrada (gustatio),  o prato principal (mensae primae) e a sobremesa (mensae secundae), que podiam conter várias opções de cardápio. Um anfitrião abastado certamente procuraria que os três impressionassem os convidados.

As entradas mais comuns consistiam em mariscos, ostras, mexilhões, pequenos aves e peixes, assados ou fritos, acompanhados de pão, queijo, folhas, frutas e sementes, tais como  nozes e castanhas.  Em qualquer caso, e também na mensae primae, os romanos adoravam temperar os pratos com o onipresente garum, um molho feito com miúdos de peixe salgados, deixados a fermentar, cujos principais centros de produção ficavam na península ibérica, especialmente no Algarve. A popularidade do garum pode ser comparada a do atual ketchup e, de fato, sabe-se que o ketchup, originalmente, era um molho feito das entranhas de peixe.

Depois vinham as saladas e os pratos de carne, normalmente aves, peixes ou moluscos, porco ou carne de caça. Os romanos não consumiam muita carne bovina, porque, além dos bois serem valiosos para o trabalho rural e o transporte, a conservação da sua carne era mais complicada (peixes eram fáceis de serem salgados no local em que eram pescados, mas a quantidade de sal necessária para salgar a carne bovina era maior e o sal era caro e nem sempre era abundante nas zonas de pecuária, mais distantes das cidades).

Uma carne muito apreciada era a de arganaz, uma espécie de roedor europeu parecida com o esquilo.

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Anfitriões abastados gostavam de impressionar os convidados com pratos exóticos, tanto pelo tipo de animal servido, como pela apresentação do prato.  Línguas de pavões, tetas de porca confeitadas recheadas com ouriços-do-mar salgados (aperitivos), papagaios assados, flamingo cozido com passas,  arganaz recheado com porco e pinhões, são pratos citados na literatura antiga.

Como curiosidade, transcrevemos duas receitas romanas extraídas de dois famosos compêndios da Antiguidade:

1 -Salada “Columella”: Coloque no moedor menta, arruda, coentro, salsinha, alho-poró fatiado, ou, caso não tenha, cebola, folhas de alface e de rúcula, tomilho verde, ou hortelã. E também poejo e queijo feta fresco. Amasse tudo junto, despeje vinagre condimentado e agite. Coloque a mistura em um prato e despeje azeite (Columella, Re Rustica, XII, LIX)

2 – Avestruz Cozido: Ingredientes: Pimenta, menta, cominho frito, semente de aipo, passas ou tâmaras, mel, vinagre, vinho pacificado, garum, azeite. Coloque tudo na panela e cozinhe. Envolva com farinha de espelta, despeje sobre as peças de avestruz (já cozidas) em uma travessa com pitadas de pimenta. Se desejar cozinhar o avestruz no molho, adicione trigo selvagem (Apicius, De Re Coquinaria, 212).

Coquetel depois do jantar

Depois da sobremesa, um banquete que se pretendesse longo evoluiria para uma fase de degustação de vinhos, em variadas formas, chamada de comissatio (valendo observar que nos banquetes romanos, ao contrário dos symposia gregos, o vinho era servido já durante a refeição).

O vinho normalmente era misturado com água ao gosto do convidado, em sua própria taça, para o qual ele se valia de uma concha, chamada de simpulum. Isso era necessário porque o processo de fermentação utilizado pelos romanos resultava em um vinho de teor alcoólico muito elevado.

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Entre os tipos de vinhos mais consumidos estava o passum, um vinho doce de uvas passificadas, o muslum, que era uma mistura de vinho e mel, de origem cartaginesa, e o conditum, que era uma mistura de vinho, mel e especiarias,  envelhecida em recipientes. Segundo as recomendações, as mulheres somente deveriam consumir o passum.

Havia taças de vários tipos, as mais comuns sendo o scyphus e o cantharus,  de inspiração grega, que tinham duas asas para segurar.

Entretenimento

Um banquete romano suntuoso certamente terminaria com uma apresentação de músicos, flautistas, tocadores de lira e até mesmo um órgão hidráulico, que podiam acompanhar ou ser seguidos de dança, acrobacia, teatro e, em alguns casos mais extremos, uma luta de gladiadores ou exibição de feras.

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Talvez o banquete mais célebre da literatura latina seja o do fictício liberto Trimalquião, personagem da obra Satyricon, uma sátira escrita pelo autor romano Petrônio, durante o reinado de Nero, que retratava as extravagâncias de um ex-escravo novo rico.

Mito

Ao contrário da crença popular, provocar o vômito durante as refeições não era um costume romano. Na verdade, conta-se que o imperador Vitélio, um notório glutão, costumava tomar remédios para vomitar durante as refeições para que ele pudesse comer mais, mas a prática é relatada como um traço patológico de glutonaria.

Na verdade, acredita-se que esse equívoco moderno seja derivado da palavra latina “vomitorium“, que era o nome dado aos portões de saída dos anfiteatros e estádios.

Finalizamos nosso artigo com a citação desse belíssimo texto do historiador francês Paul Veyne:

 

O muro é penhor de civilidade; o banquete é cerimônia de civilidade. Assim que se vê em suas terras, em seu caro retiro, Horácio convida uma amiga para jantar, sem dúvida uma liberta, cantora ou atriz conhecida. Pois o banquete, para todos os usos, é a circunstância em que o homem privado desfruta do que ele de fato é e o mostra veridicamente a seus pares. O banquete tinha tanta importância quanto a vida dos salões no século XVIII e mesmo quanto a corte no Ancien Regime. Os imperadores não tinham corte; viviam em seu “palácio” na colina do Palatino, à maneira dos nobres de Roma em suas mansões. Cercados de escravos e libertos (tanto que o palácio abrigava os diferentes serviços ministeriais); mas, caída a noite, jantavam com seus convidados, que eram senadores ou simples cidadãos cuja companhia apreciavam. Acabavam-se as honras “públicas” e o “governo” do patrimônio: à noite o homem privado desabrochava no banquete; até os pobres (hoi penêtes) — ou seja, nove décimos da população — tinham suas noites de festim. O homem privado esquecia tudo durante o banquete, menos sua eventual “profissão”; um indivíduo que fez voto de consagrar a vida à busca da sabedoria não festejava da mesma forma que o profano vulgo, e sim como filósofo.

O banquete constituía uma arte. A etiqueta parece ter sido menos elaborada e rigorosa que a nossa. Em compensação, jantava-se com clientes e amigos de toda posição, tanto que a ordem de precedência era rigorosamente observada na distribuição dos leitos ao redor da mesa onde ficavam os pratos. Não havia verdadeiro festim sem leito, mesmo entre os pobres: só se comia sentado nas refeições comuns (nas casas simples a mãe de família, de pé, servia o pai à mesa). A comida nos pareceria ora oriental, ora medieval. Contém muitos temperos e molhos complicados. A carne é fervida antes de cozinhar ou assar — tanto que perde o sangue — e adoçada. A gama dos sabores favoritos situa-se no agridoce. Para beber, poderíamos escolher entre um vinho com gosto de marsala e um resinado, como hoje em dia na Grécia, todos cortados com água. “Reforça a dose”, ordena a um escanção um poeta erótico de coração partido. Pois a melhor parte do jantar, a mais longa, é aquela em que se bebe; durante a primeira metade do jantar nada se faz senão comer sem beber; a segunda parte, em que se bebe sem comer, constitui o banquete propriamente dito (comissatio). É mais que um festim: uma pequena festa, onde cada qual deve manter seu personagem. Em sinal de festa, os convivas portam chapéus de flores ou “coroas” e usam perfume, quer dizer, estão untados de óleo perfumado (desconhecendo-se o álcool, o óleo era o solvente dos perfumes): os banquetes eram suntuosos e brilhantes, assim como as noites de amor. 

O banquete era muito mais que um banquete, e esperavam–se considerações gerais, temas elevados, recapitulações de atos pessoais; se o dono da casa tem um filósofo doméstico ou um preceptor dos filhos, ordena-lhe que tome a palavra; os interlúdios musicais (com danças e cantos), executados por profissionais contratados para a ocasião, podem dar mais vida à festa. O banquete constitui uma manifestação social equivalente ao prazer de beber — ou até maior — e por isso inspirou um gênero literário, o do “banquete”, em que os homens de cultura, filósofos ou eruditos (grammatici), abordam temas elevados. Quando a sala de festim oferece desse modo um espetáculo mais de salão que de refeitório, o ideal do banquete se realiza e a confusão com um festejo popular já não é possível. “Beber” designava então os prazeres da mundanidade, da cultura, e às vezes os encantos da amizade; pensadores e poetas também podiam filosofar sobre o vinho.

(Paul Veyne, História da Vida Privada, do Império Romano ao Ano Mil, 1990. p. 181-184, Ed. Companhia das Letras)

A APOSENTADORIA EM ROMA

A APOSENTADORIA EM ROMA

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É natural que o ser humano envelheça e a velhice diminui a disposição física e traz consigo doenças e incapacidades variadas.

A paleontologia mostra que já nossos ancestrais costumavam cuidar dos indivíduos idosos, provendo-lhes alimento e abrigo. Com efeito, foram encontrados fósseis de nossos primos evolutivos Neanderthais em que se constatou que determinados indivíduos não tinham a menor capacidade sequer de mastigar o alimento, condição esta adquirida vários anos antes da morte do espécime considerado, o que tornou evidente para os cientistas que os parentes mastigavam a comida para ele.

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Nas sociedades atuais, essa característica ancestral certamente é a causa primordial da maior parte dos sistemas de aposentadoria atuais, normalmente deslocando para o Estado, mediante contribuições arrecadas da coletividade, o dever de manter não apenas a subsistência, mas o acesso a um padrão mínimo de consumo, aos seres humanos que não podem mais trabalhar ou já trabalharam tempo demasiado. Em voga atualmente no Brasil, devido ao projeto de Reforma da Previdência, o tema, não obstante, trata de um problema bem antigo.

Em Roma, podemos perceber que o direito social à aposentadoria legalmente surge, ainda em caráter embrionário, no início do período imperial, reconhecido à classe militar.

Com efeito, o imperador Augusto instituiu o “Aerarium Militari”, como uma fonte permanente de proventos para os veteranos do Exército Romano, mediante o pagamento de pensões “praemia” aos militares que encerravam o seu tempo de serviço (antes do Império, o usual era distribuir terras aos veteranos e assentá-los em colônias, onde, obviamente, continuariam trabalhando para obter o seu sustento).

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Assim, após 20 anos de serviço, o soldado recebia uma pensão de 12.000 sestércios, equivalente a doze anos de pagamento, valor que permaneceu estável até o reinado de Caracala, ou seja, por mais de 200 anos, quando foi aumentado para 20.000 sestércios. Augusto capitalizou, utilizando recursos de seu patrimônio privado (fiscus), um fundo de pensão militar de 170 milhões de sestércios, que também recebia contribuições de reinos aliados e de cidades do Império. Logo, porém, o imperador percebeu que aquele montante era insuficiente, e foi necessário destinar um percentual de 5% do imposto sobre herança, e de 1% do imposto sobre os bens vendidos em leilão, para financiar as aposentadorias dos soldados. O fundo era administrado por 3 Prefeitos (Prefecti Aerarii militaris).

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Além da previdência pública, havia em Roma um sistema de fundos mútuos privados para aposentadorias, que recebiam contribuições estabelecidos por indivíduos e também por várias corporações profissionais, para pagamento de aposentadorias anuais (annua) a seus beneficiários, administrados por corretores ou financistas. O célebre jurista romano Cneu Domício Ânio Ulpiano (Ulpiano) atuou como gestor de um desses fundos e é considerado o criador da primeira tabela de cálculo atuarial em função dos anos de vida dos beneficiários.

UM ESCRITOR ROMANO ESCREVEU O PRIMEIRO LIVRO DE FICÇÃO CIENTÍFICA

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Luciano de Samosata, um escritor romano de origem síria e fala grega, escreveu o que podemos considerar a primeira novela de ficção científica, com o título de “A História Verdadeira”.

Luciano nasceu na cidade de Samosata; antiga capital do reino da Comagena, anexado pelos romanos em 72 D.C.  Pouco é conhecido sobre a sua vida,  mas ele deixou cerca de 80 obras literarias, a maioria sátiras sobre os costumes e a sociedade do seu tempo. Acredita-se que ele morreu por volta de 180 D.C., em Alexandria.

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No livro, escrito durante o reinado do imperador Marco Aurélio (161-180 D.C), Luciano narra uma expedição para além do estreito de Gibraltar, na qual o navio em que ele e seus amigos viajavam foi jogado ao espaço por um ciclone, levando-os, em uma viagem de sete dias, até a Lua!

Na inovadora obra, Luciano descreve as paisagens e os seres que viviam no satélite, inclusive uma raça somente de indivíduos do sexo masculino, cujas crias nasciam das próprias pernas deles. Esses habitantes da Lua encontravam-se em guerra contra uma raça que habitava o Sol, e o motivo do conflito foi a disputa pela colonização do planeta Vênus, então chamado de “Estrela Matinal”.

Luciano, após visitar também aqueles corpos celestes, descreve em detalhe as suas paisagens, numa visão  bem diferente da crença tradicional dos antigos; que os identificavam  como deuses…

 

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A TOCANTE CARTA DE UM LEGIONÁRIO ROMANO LONGE DE CASA À FAMÍLIA

Aurelius Polion era um legionário romano que servia na Legião II Auditrix, estacionada na província da Panônia. A família de Aurelius morava na cidade egípcia de Tebtunis  (atual Umm el-Baragat), que floresceu no período ptolomaico. Portanto, assim como muitos outros habitantes da cidade, Aurelius e seus familiares deviam ser de origem grega, ou então, egípcios helenizados.

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(Ruínas de Tebtunis, Egito. A cidade era um centro do culto ao deus-crocodilo Sobek)

O nome de Aurelius, bem como a unidade e o local onde esta estava estacionada, indicam que Aurélio ou seus pais devem ter recebido a cidadania romana no reinado de Caracala, que, em sua “Constitutio Antoniniana“, estendeu a cidadania romana a todos os habitantes livres do Império Romano.

Uma carta enviada por Aurelius à sua família, escrita em grego, foi encontrada, há 115 anos, em Tebtunis, mas ela somente foi traduzida em 2012, por Grant Adamson, doutorando da Rice University. Infelizmente, faltam alguns pedaços do papiro em que a referida missiva foi escrita, causando algumas lacunas no texto, que vamos traduzir do italiano (vide https://amantidellastoria.wordpress.com/2015/02/15/lincredibile-lettera-di-un-soldato-romano-alla-famiglia/), pedindo perdão antecipadamente por qualquer erro:

Aurelius Polion, soldado da Legião II Auditrix, ao seu irmão Heron, à sua irmã Ploutou, à sua mãe Seinouphis, a padeira e senhora (?) e a tantos parentes, saudações! Rezo dia e noite para que vocês gozem de boa saúde, e ofereço sempre a todos os deuses em vosso nome. Não paro de vos escrever, mas vocês não pensam em mim. Mas eu faço a minha parte vos escrevendo sempre e não deixando de estar próximo de vocês com a mente e com o coração. No entanto, vocês não me escrevem mais para me contarem acerca da vossa saúde e de como vocês estão.. Estou preocupado com vocês, porque, tendo recebido muitas cartas minhas, não me responderam mais, assim, não posso saber como vocês (…) enquanto estava na Panônia, eu vos mandei (uma carta), mas me trataram como a um estranho (…) Fui embora (…) e vocês estão felizes? (…) o Exército eu não (…) vocês (…) para o Exército, mas eu (…) deixei vocês. vos mandei cartas (…) tentarei conseguir uma permissão do comandante e e irei até ti a fim de que tu possas entender que eu sou teu irmão (… )Não pedi nada a vocês para o Exército, mas eu os decepcionei porque embora eu vos tenha escrito, nenhum de vocês (?) (…) teve consideração(…) Vejam, vosso (?). Próximo (…) sou teu irmão. Vocês, também, respondam-me (…) escrevam-me. Cada um de vocês, mandem-me o seu (…) para mim. Saúdem a meu pai Aphrodisios e meu (?) tio (?) Atesios (…) sua filha (…) seu marido e Orsinouphis e os filhos da irmã de sua mãe, Xenphon e Ouenophis, conhecido também como Protas (…) os Aurélios (…) a carta (…) para os filhos e para Seinouphis , a padeira (…) da (?) Aurelius (?)Polion, da Legião II Adiutrix (…) da(?) Pannonia Inferior (?) (…)entregue a Acutius(?) Leon(?), veterano da legião (…) Da parte de Aurelius Polion, soldado da legião II Adiutrix, a fim de que possa enviá-la para casa.

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Como podemos ver, o veterano Acutius Leon cumpriu fielmente o seu encargo e a carta foi entregue à família de Aurelius Polion, atravessando os milhares de quilômetros que separam a Panônia do Egito.

Nós, aqui do blog “Histórias de Roma”, gostaríamos de acreditar que Aurelius tenha se reconciliado com seus familiares e que tenha podido, um dia, reencontrar seus entes queridos.

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GETTY VILLA – UMA MANSÃO ROMANA NA CALIFÓRNIA

Há poucos dias visitei a Getty Villa, uma reconstrução perfeita da Villa dos Papiros, uma mansão romana, na verdade um casa de praia de luxo, em Herculano, que foi soterrada pela erupção do Vesúvio, em 79 D.C.

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A Villa dos Papiros foi redescoberta a partir de 1758, rendendo a maior coleção de esculturas romanas já encontrada em um simples lugar. Mas o motivo pelo qual ela se tornou famosa ainda no século XVIII foi o fato de mais de 1800 rolos carbonizados de papiros terem sido encontrados no biblioteca da propriedade. Vale observar que boa parte da Villa ainda não foi escavada, entre outros motivos, pelo fato de vários quarteirões de casas atualmente ocupadas terem sido construídas sobre os detritos da erupção que cobriram a vasta área do imóvel.

O bilionário americano John Paul Getty, um aficionado pelas obras de arte da antiguidade clássica, mandou reconstruir a Villa a partir de 1954, em um terreno próximo às praias de Santa Monica, que ele tinha  na elegante região de Pacific Palisades, na Califórnia, na área metropolitana de Los Angeles,  para hospedar a sua inestimável coleção de arte antiga. Nos anos 70, a Getty Villa foi aberta à visitação gratuita pelo público (porém, o estacionamento custa 15 dólares), e faz parte da instituição do Getty Museum.

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Um inventor italiano, ainda no século XVIII, inventou uma máquina para desenrolar parcialmente e fatiar os papiros, possibilitando a leitura de boa parte dos textos. Hoje, técnicas de escaneamento de imagens aumentaram ainda mais a capacidade de revelar o conteúdo dos papiros. A maior parte das obras pertence ao filósofo epicurista Philodemos (Filodemo).

Acredita-se que a casa pertenceu a Lúcio Calpúrnio Pisão Caesoninus, que era um rico senador e sogro de Júlio César. Pisão era patrono de Filodemo, que provavelmente morou na Villa e há até um estudioso que acredita que a casa teria pertencido ao próprio Filodemo, talvez como presente de Pisão.

Getty mandou acrescentar ao projeto da reconstrução, ambientes de outras ruínas antigas, como por exemplo, uma reprodução de uma fonte de uma casa de Pompéia. Houve uma cuidadosa reconstituição do paisagismo original da Villa dos Papiros em Herculano, baseada nos vestígios de plantas e sementes carbonizadas encontradas “!in situ” pelos arqueólogos.Também foram colocadas nos mesmos lugares onde se encontravam no imóvel original, reproduções das esculturas de mármore e bronze encontradas na casa em Herculano, que hoje se encontram no Museu Nacional de Nápoles.

Eu recomendo muito a visita à Getty Villa para todos os amantes da História de Roma e apreciadores da Antiguidade Clássica em geral, mas também como atração turística, pela beleza do lugar.

Veja o vídeo em https://youtu.be/ByRSRfCvpq0

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O ESPORTE NA ROMA ANTIGA

 

O ESPORTE NA ROMA ANTIGA

Durante os próximos 30 dias, a bola será o centro do mundo e muitos discutem a paternidade do futebol, havendo até uma tese de o jogo teria suas raízes em um antigo esporte romano.

 

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Mens Sana in Corpore Sano”. Quase todo mundo conhece essa expressão de origem romana que significa “Uma mente sã, em um corpo sadio” e imediatamente a identifica como uma exortação à necessidade de se cultivar, ao mesmo tempo, o intelecto e o físico. Trata-se, na verdade, de um verso do grande poeta romano Juvenal, que inclui a boa saúde física e mental como uma das bençãos que se deve pedir aos deuses, preferivelmente a uma vida longa, mas sem virtude.

Ao longo dos séculos, porém, a frase de Juvenal acabou adquirindo o caráter de lema romano pela prática de esportes. É com ela, portanto, que iniciamos nosso texto sobre a atividade esportiva em Roma.

Inicialmente, enquanto era apenas uma Cidade-Estado que se expandia pela Itália e pelo Mediterrâneo Ocidental, no período republicano, a prática de esporte em Roma era valorizada apenas como forma de treinamento militar para os jovens cidadãos. Havia um espaço na cidade, o Campo de Marte, onde eram feitas as manobras das legiões e onde os jovens podiam se exercitar no arco, na equitação e na esgrima, entre outras atividades. Porém, naquele tempo, o esporte por esporte não fazia parte da formação da criança e do jovem romano, ao contrário do que ocorria nas cidades-estado gregas.

O fato é que a elite romana, durante muito tempo e ainda no limiar do Império, julgava que exibir-se em público praticando qualquer atividade esportiva que não fosse ligada às artes militares era algo degradante e indigno de um patrício. Por outro lado, o grosso do exército era formado por pequenos agricultores livres, que, certamente, já praticavam bastante exercício físico na dura lida cotidiana do semeio, cultivo e colheita.

Assim, somente quando aumenta o contato direto dos romanos com a civilização grega, no sul da Itália e, sobretudo após a conquista de territórios na Grécia, no século II A.C, é que o esporte, em conjunto com outras manifestações culturais gregas, como o teatro, a filosofia, as artes,e a própria língua grega, passam a ter grande influência na elite romana (“a Grécia cativa cativou Roma”).

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A partir de então, os nobres, em suas villas (propriedades rurais de luxo), construíram espaços privados para a prática de ginástica e atletismo (gymnasia e palestrae). Note-se, porém, que, no início, os romanos viram com maus olhos o atletismo à moda grega, sobretudo porque os atletas se exercitavam e competiam completamente nus. Por isso, algumas leis tentaram proibir membros da aristocracia romana de competirem em público.

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Em 186 A.C., pela primeira vez, jogos públicos incluindo exibição de atletas são organizados pelo cônsul Marcus Fulvius Nobilior, em comemoração à sua vitória contra a Liga Etólia, na Grécia. Nobilior era um grande entusiasta da cultura grega, uma civilização em que os atletas profissionais eram admirados e, por isso, ele resolveu trazer a novidade para Roma.

As competições de atletismo compreendiam as seguintes modalidades: corrida, luta-livre (wrestling – hoje conhecida como luta greco-romana), pugilismo (boxe), pentatlo (que abrangia as modalidades de salto em distância, corrida, lançamento de disco, lançamento de dardo e luta-livre) e pancration (uma luta que pode ser comparada ao nosso “vale-tudo”, agora internacionalizada como MMA).

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Já no fim da República, as termas, ou banhos públicos, começam a proporcionar, além das piscinas e saunas, espaços adjacentes com palestras, ou seja, espaços abertos cercados por colunatas, destinados à prática de exercícios físicos. Nas termas, também havia piscinas específicas para a prática de natação (chamadas de natatio). Em seguida, muitas termas também passaram a dispor de espaços para jogos com bola, chamados de sphaerista, pois, além do atletismo e das lutas, os romanos importaram da Grécia uma série de jogos com bola (pila, em latim).

Entre os jogos com bola mais populares estava o Harpastum, cujo nome derivava do grego harpaston, que significa “capturar” ou “tomar”. Esse jogo também era chamado pelos romanos de “jogo com a bola pequena”. Essa bola pequena e dura, que não quicava, era chamada de harpasta (havia outros jogos com bolas maiores, parecidas com a do nosso futebol, que eram infladas e quicavam (ex: follis).

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O Harpastum, segundo o retórico e gramático Athenaeus, que escreveu sobre muitos costumes do mundo greco-romano no século II D.C, era o nome que os romanos davam ao jogo que os gregos também chamavam de Phaininda.

Não se sabe com exatidão qual eram as regras do Harpastum, mas todos os textos que foram preservados mencionando o jogo levam a crer que era muito parecido com o rúgbi. Era, com certeza, um jogo jogado com as mãos, em um campo grande, provavelmente de terra ou às vezes areia e de formato retangular, não muito menor do que um campo de futebol moderno, dividido ao meio por uma linha. Talvez houvesse versões do jogo, variando o número de jogadores de 5 a 12 em cada um dos dois times oponentes. As descrições mencionam um jogador recebendo a bola e fazendo passes para os companheiros de time, com os adversários tentando interceptar. A marcação era dura e os adversários eram jogados no chão. Porém, o objetivo era penetrar no campo adversário e capturar a bola, daí resultando, talvez, o nome que foi dado à pelota.

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Fizemos questão de escrever sobre o Harpastum , nesta semana da abertura da Copa do Mundo, porque há um teoria de que este jogo seria o ancestral do nosso futebol. Sabe-se que os soldados romanos praticavam muito o Harpastum, porque, além de envolver muito esforço físico, o jogo servia também como treinamento estratégico e tático. E as legiões romanas teriam levado o jogo para todos os cantos do império, inclusive a Britânia. Após a Queda do Império Romano, o Harpastum teria evoluído em diversas regiões que se tornariam os futuros países da Europa, e seria o provável ancestral do La Soule, um jogo com bola que surgiu na Normandia, França, e também do ancestral inglês do rugby e, a partir deste último, do football association, o nosso futebol.

Não obstante, os romanos certamente jogavam algum jogo que envolvia chutar uma bola, pois Cícero nos conta acerca de um curioso caso forense envolvendo a morte de um cliente que tinha ido cortar o cabelo em uma barbearia e ali foi morto por causa de uma bola chutada por crianças que jogavam na rua, sendo que a bola bateu na mão do barbeiro no exato momento em que este usava a navalha no pescoço da infeliz vítima!

Se os romanos não foram muito criativos na invenção de esportes, adotando quase todos os que conheciam de outros povos, no entanto, ninguém pode tirar-lhes os louros de terem inventado a indústria do esporte como entretenimento.

Desde os primórdios, havia em Roma jogos públicos para o entretenimento do povo romano (ludi). Esses jogos tinham um nítido propósito religioso, pois integravam festividades em homenagens às diversas divindades adoradas pelos romanos. Não se tratavam, assim,  propriamente, portanto, de competições esportivas, mas sim de exibições que buscavam o espetáculo e a diversão. Com efeito, pelo menos desde 366 A.C., o calendário romano incluía dias feriados chamados de ludi romani (jogos romanos), patrocinados pelo Estado.

Em Roma, o principal espaço para a realização dos ludi era o Circo Máximo, cuja pista existe até hoje. A principal modalidade esportiva praticada ali eram as corridas de bigas e quadrigas (carruagens puxadas por dois ou quatro cavalos), chamadas de Ludi Circensis. Se o leitor quiser ter uma ideia de como elas deviam ser, é só assistir ao filme “Ben-Hur”, em que provavelmente foi encenada a melhor reprodução cinematográfica de uma corrida de quadrigas. Júlio César reconstruiu o Circo Máximo, dotando-o de arquibancadas permanentes revestidas de mármore.

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Como o número de espectadores é o melhor termômetro para se medir qual esporte é o mais apreciado, sem dúvida esse título em Roma vai para as corridas de quadrigas, pois o Circo Máximo tinha capacidade para, pelo menos, 250 mil espectadores!

As corridas consistiam em 7 bigas ou quadrigas darem 7 voltas por toda a extensão da pista de 650 m de comprimento que circundava uma plataforma em forma de “U” bem alongado, chamada de “spina”, ganhando a que chegasse em primeiro. Havia na spina uma espécie de placar marcando o número de voltas e o número da quadriga que estava liderando, consistindo os marcadores  em esculturas de 7 ovos e de 7 golfinhos que eram giradas conforme a situação se desenvolvia.

Mosaico del circo MCGR 2285 by QuartierLatin1968 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons - httpscommons.wikimedia.orgwikiFileMosaico_del_circo_MCGR_2285.jpg#mediaFileMosaico_

Os romanos eram tão apaixonados pelas corridas de bigas que as equipes e respectivos apoiadores logo se dividiram em 4 facções: os Vermelhos, Brancos, Verdes e Azuis. Com o tempo, essas facções evoluíram para representarem não apenas as corridas, mas cultos religiosos, bairros da cidade e, finalmente, agrupamentos políticos. E essas facções perduraram não somente em Roma,  mas permaneceram em existência durante o Império Romano do Oriente, em Constantinopla, também chamado de Império Bizantino. A famosa revolta “Nika”, em 532 D.C, que tentou destronar o Imperador Justiniano, começou com um conflito urbano promovido pelas facções rivais dos Azuis e dos Verdes. Constantinopla, como muitas cidades romanas, também tinha o seu hipódromo, cujas ruínas podem ser vistas ainda hoje. Estima-se que a sua capacidade era de 80 mil lugares.

A história registra vários episódios de devoção ou fanatismo esportivo pelas corridas de bigas. Os escritores faziam questão de registrar as estatísticas esportivas. Consta que o auriga (condutor de carruagens) mais bem sucedido foi Gaius Appuleius Diocles que venceu 1.462 corridas de um total de 4.257 disputadas, ganhando um total de 35.863.120 sestércios, soma que, estima-se, equivaleria hoje a 15 bilhões de dólares, o que o tornaria o esportista mais bem pago de todos os tempos! Diocles aposentou-se com 42 anos, após 24 anos de carreira (conforme matéria publicada no jornal Daily Telegraph (vide https://www.telegraph.co.uk/news/newstopics/howaboutthat/7942699/Wealth-of-todays-sports-stars-is-no-match-for-the-fortunes-of-Romes-chariot-racers.html).

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Os ludi foram imediatamente utilizados pelos imperadores como forma de propaganda política e manipulação de massas. Desde o início do Principado, os espetáculos aumentavam em número e suntuosidade. As lutas de gladiadores, costume que os romanos adquiriram dos etruscos, utilizados em cerimônias fúnebres privadas, passaram a integrar os jogos públicos, oferecidos e custeados pelos cônsules e pelo próprio imperador. Não vamos tratar, aqui, dos detalhes relativos aos combates na arena, uma vez que, em nossa opinião, a prática não se enquadra como esportiva.

O uso dos jogos como ferramenta de controle das massas pelos imperadores romanos, em conjunto com a distribuição gratuita de alimentos (anonna), gerou a célebre expressão “Pão e Circo”,  também cunhada por Juvenal, por volta do ano 100 D.C. A sua análise foi tão profunda, que merece ser citada na íntegra :

Já por muito tempo, desde quando nós não vendíamos o nosso voto para apenas uma pessoa, o Povo Romano tem abdicado de nossas responsabilidades; pois o Povo, que, anteriormente, distribuía os comandos militares, os altos cargos públicos, as legiões, enfim, tudo; agora se auto-restringe e, ansiosamente, espera somente duas coisas: pão e circo” (Sátiras, X, 77-81).

Com a advertência de Juvenal, encerramos nosso artigo sobre o Esporte em Roma, esperando que tenham gostado.

O “BOLSA-FAMÍLIA” DE ROMA

 

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Em 18 de maio de 332 D.C., o Imperador Constantino, o Grande, anunciou que o povo de Constantinopla também receberia a “Cura Annonae“, a distribuição gratuita de grãos que era feita aos cidadãos livres da cidade de Roma.

Tal medida colocava a população pobre da “Nova Roma Constantinopolitana” (nome oficial da nova capital) no mesmo plano de sua irmã mais velha e ilustre, a velha Roma, onde essa política era exercida desde a velha República, variando ao longo do tempo entre a distribuição gratuita de trigo (e de outros gêneros alimentícios, como carne salgada e azeite) e a venda a preços subsidiados. 

Oitenta mil cidadãos de Constantinopla faziam jus ao donativo (em Roma eram 200 mil).

Em Roma,  a existência de uma ração de trigo fornecida pelo Estado remonta a 440 A.C., com a instituição de um Prefeito da Anona (Praefectus Annonae). Mas durante muito tempo, esta era somente uma medida emergencial, para fornecer alimentação em tempos de secas ou crises excepcionais de abastecimento. A Anona era personificada como uma deusa,  e a distribuição dos grãos era feita no vetusto Templo de Ceres, de 493 A.C., na colina do Aventino, próxima ao Circo Máximo.

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(Templo de Ceres, no sopé do monte Aventino)

Posteriormente, com a progressiva concentração da terra nas mãos de grandes latifundiários, enriquecidos pelas conquistas romanas (um fenômeno que contribuiu para o aumento do proletariado e o decorrente crescimento da população urbana de Roma), a facção dos Populares no Senado Romano passou a apoiar o fornecimento de grãos aos cidadãos livres de Roma a preços subsidiados.

Assim, a Prefeitura da Anona ficou encarregada de coletar os tributos pagos em gêneros, como era o caso do trigo, e vendê-las a preço baixo para a população pobre da cidade.  Os irmãos Graco defenderam essa política, e Caio Graco fez promulgar, em 123 A.C., uma  lei específica nesse sentido.

A Anona passou a ser, a partir de então, um elemento praticamente obrigatório na plataforma de todos os políticos que pretendiam os votos do cada vez mais numeroso proletariado romano com direito ao voto.

Em 58 A.C., Clodius Pulcher (Clódio), talvez o mais populistas de todos os integrantes da facção dos Populares, após ser eleito Tribuno da Plebe, conseguiu aprovar uma lei instituindo o fornecimento gratuito de trigo para praticamente todos os plebeus de Roma, o que implicou em grande aumento das despesas públicas.

Já o Ditador Júlio César, após assumir o poder supremo, legislou de modo a tornar a Cura Annonae mais restrita e organizada. Assim, o número de beneficiários foi recenseado, arrolando-se um número menor de beneficiários em relação aos tempos de Clódio. Por sua vez, o Imperador Augusto reduziu ainda mais o número de beneficiários da Anona, fixando-o em duzentos mil cidadãos.

Durante o início do Império Romano, o responsável pela administração da Anona era o “Curator Alimentorum“, que era um dos mais importantes postos da nova burocracia imperial, encarregados da execução de uma dos pilares da política dos imperadores, que ficaria conhecida como Política do “Pão e Circo“,  inspirada na expressão utilizada pelo poeta Juvenal, que criticava a tática de usurpar a soberania popular em troca de comida e de espetáculos.

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A partir do imperador Septímio Severo, foi incluída na Anona a distribuição de azeite grátis. Posteriormente, o imperador Aureliano passou a distribuir, em vez de trigo, os próprios pães já assados, juntamente com rações de sal, carne de porco, na forma de toucinho,  e de vinho, por um preço baixo (mas, às vezes, estes também eram distribuídos gratuitamente).

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(Denário de Nero, mostrando a figura simbólica da Anona, foto de Classical Numismatic Group, Inc)

Para o sucesso e continuidade da Cura Anonnae era fundamental a existência de excedentes agrícolas, bem como de uma rede logística adequada. Note-se que os arredores da cidade de Roma, e mesmo a península italiana como um todo, não geravam excedentes para alimentar a população de Roma, que nos tempos de Augusto já tinha cerca de um milhão de habitantes.

Além disso, a tecnologia romana de transporte de carga por animais por via terrestre não permitia que a quantidade necessária fosse transportada pelas estradas. Com efeito, os Romanos não conheciam o arnês de coleira, de modo que o sistema de arreios que eles usavam não permitia que os bois levassem muita carga, pois eram sufocados pelo tipo de cangas que eles usavam.

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Todavia, as regiões que produziam abundante excedente agrícola, inicialmente a Sicília e, tempos depois, o Egito e a África do Norte, eram todas ligadas à Roma por via marítima. Desse modo, o Império Romano organizou um sistema complexo de armadores e afretadores marítimos e fluviais (navicularii), que eram empresários particulares, mas rigidamente controlados pelo Estado,  construiu gigantescos portos, tais como o de Óstia, e também armazéns para possibilitar o transporte e a armazenagem dos grãos, além de muitos moinhos.

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Estima-se que a Anona, em Roma, requeria o fornecimento  da descomunal quantidade de 600 milhões de libras de trigo, que deveria ser transportada, armazenada e distribuída na Cidade.

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(Porto de Óstia, na foz do Rio Tibre, reconstituição e foto aérea das ruínas)

OS PORTÕES DO INFERNO

This Roman ‘gate to hell’ killed its victims with a cloud of deadly carbon dioxide

Fonte: Science Magazine

Cientistas desvendam os mistérios do “Plutonium” , no complexo de templos dedicados ao deus Plutão, na cidade de Hierápolis, na atual Turquia.

O Plutonium era um santuário dedicado a Plutão, deus romano que governava o mundo subterrâneo para onde iam os mortos. No local, sacerdotes castrados traziam animais, geralmente touros, para serem sacrificados, sendo que as vítimas morriam rapidamente sem qualquer intervenção humana, mas os homens que os traziam não sofriam qualquer dano.

Os arqueólogos descobriram que no meio do santuário quadrado, circundado por degraus para os fiéis sentarem-se, ficava uma porta dando para uma pequena gruta, que se comunicava com uma falha geológica que corta a cidade de Hierápolis, em um dos lugares mais geologicamente ativos da região.

Redescoberto a apenas 7 anos atrás, constatou-se que a fissura no solo onde ficava o Plutonium emite constantemente dióxido de carbono vulcânico, que forma uma pequena névoa, que se forma de noite, mas, pela manhã, é dissipada pelos raios de sol. A névoa que se forma no solo é capaz de matar, até a altura de 40 cm, mas acima disso, a concentração de CO² cai rapidamente. Assim, os sacerdotes não eram afetados pelo gás, mas os animais, miraculosamente, morriam asfixiados, ao menos para os antigos, que atribuíam o fato ao poder de Plutão.

ROMA E SEUS MUROS

Os muros voltaram!

Em pleno século XXI, governantes voltam a investir na construção de muros. Nos Estados Unidos, o polêmico e contestado Presidente Trump elegeu-se tendo com uma de suas promessas a construção de um muro na fronteira dos Estados Unidos com o México. Israel constrói muros separando o país e o território controlado pela Autoridade Palestina; na Hungria, o governo está construindo um muro na fronteira sul do país para impedir a entrada de refugiados  vindos do Oriente Médio…

 

 

A construção de barreiras contra inimigos, reais ou ilusórios, é uma medida recorrente na história dos povos através dos tempos, com maior ou menor sucesso.

Quase todas as cidades do Velho Mundo, e até mesmo do Novo Mundo, tiveram muralhas. Até o século XIX, elas faziam parte da paisagem urbana européia: é verdade que Londres, a precursora, derrubou as suas por volta de 1760, mas as de Viena duraram até 1857. Paris as teve até 1860 e Madri, até 1868.

Em Roma, as primeiras muralhas teriam sido construídas pelo seu sexto rei, Sérvio Túlio, que reinou de 575 a 535 A.C. Essas muralhas provavelmente foram destruídas ou abandonadas durante o domínio etrusco, sendo que, após a invasão gaulesa e o saque de Roma, em 390 A.C, foram levantados novos muros.

Os soldados romanos, normalmente, estavam acostumados a estarem do lado de fora das muralhas, na posição de atacantes,  tentando ultrapassá-las para conquistar uma cidade inimiga cercada: uma das mais importantes condecorações militares romanas era a “corona muralis” – uma coroa de ouro com o formato de um muro que era concedida ao primeiro soldado romano que conseguisse galgar uma muralha.

Impérios em expansão geralmente não necessitam e não dão importância a muralhas. De fato, após a “pax romana”, quando Roma dominou todo o Mediterrâneo e não tinha inimigos à altura, as cidades romanas passaram a negligenciar o reparo e a construção de muralhas, chegando muitas a desmoronarem ou terem o seu perímetro ultrapassado pela expansão urbana, sem que novas fossem edificadas.

Por outro lado, no plano externo, após a derrota das legiões de Varo, na Germânia, que significou o abandono do projeto de incorporação daquele território e de expansão romana além do Reno, houve a necessidade de se estabelecer uma linha de fortificações, torres de vigilânciae paliçadas para prevenir incursões dos bárbaros germânicos, o “limes germanicus”, que, porém, não chegou a ser uma muralha em termos clássicos.

Depois de invadirem a Grã-Bretanha, os romanos perceberam que os custos econômicos e militares de uma expansão até ao norte da ilha também não se justificavam, face a resistência das tribos dos Pictos e Escotos, antepassados dos escoceses. O imperador romano Adriano, que era avesso à política expansionista de seu antecessor Trajano, construiu a primeira muralha fronteiriça contínua de Roma, a chamada “Muralha de Adriano”, no século II D.C.

 

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Porém, mais do que uma estrutura defensiva, a Muralha de Adriano era uma declaração política e uma exibição de poder. Com efeito, além de significar que a expansão romana terminava ali naquele lugar,  pela vontade do imperador, ela servia também como propaganda da divisão do mundo entre civilização e barbárie: de fato, estudos mostram que a muralha era coberta de argamassa caiada de branco, para parecer mais vistosa e impressionante para os bárbaros do outro lado.

Para muitos estudiosos militares, muralhas, entretanto, são uma declaração de fraqueza: nações poderosas não precisam de muralhas, pois seus exércitos são poderosos e temidos o suficiente para intimidar e derrotar os seus vizinhos, invadindo o território inimigo quando for necessário.

Quando o Império Romano passou a ser alvo frequente das invasões germânicas, em meados do século III D.C, as muralhas voltaram à moda: Por todo o Império, as cidades começaram a reparar os seus muros ou a construir novas muralhas.

A própria Roma não escapou. Após a invasão dos Vândalos, que saquearam a cidade de Placência, no norte da Itália, o imperador Aureliano ordenou a construção das impressionantes muralhas que levam o seu nome, com 19 km de extensão, construídas entre 271 e 275 D.C.

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Reforça a tese dos especialistas antipáticos à estratégia militar baseada em muralhas, o fato de que, durante toda a existência das suas muralhas anteriores, ditas Servianas, a cidade de Roma passou 800 anos sem ser invadida por inimigos estrangeiros. Contudo, apenas 140 anos após a construção das Muralhas Aurelianas, Roma foi invadida e saqueada pelos Godos, em 410 D.C.  E, apenas 45 anos depois disso, a Cidade Eterna seria saqueada, ainda mais brutalmente, pelos Vândalos, 455 D.C.

Por outro lado, agora como um caso de sucesso de uma muralha, a nova capital do Império, Constantinopla, que, em 405 D.C recebeu as formidáveis Muralhas Teodosianas, resistiu por mais de mil anos ao cerco dos mais variados inimigos, somente vindo a cair em 1453 D.C, quando os Turcos empregaram os mais poderosos canhões da época.

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Enquanto isso, no moribundo Império do Ocidente, começava uma tendência que se acentuaria na Idade Média:  a população civil circunvizinha , para se proteger, se mudou para quartéis militares fortificados (castra),  para pequenos fortes militares (castellum) ou para pequenos povoados situados em colinas e morros (oppidae). Com a Queda do Império, essas posições fortificadas, agora ocupadas principalmente pelos nobres germânicos vitoriosos, passaram a ser a controlar as terras e a população rural vizinhas, dando origem aos onipresentes castelos que dominaram a paisagem européia medieval.

No século XX, entretanto, o conceito de estratégia militar baseada em muralhas recebeu dois grandes baques: a) a humilhante inutilidade da “Linha Maginot”, contornada com facilidade pelo exército alemão na 2º Guerra Mundial; e b) a queda do “Muro de Berlim”, abatida a golpes de picareta pelos próprios cidadãos da Alemanha Oriental.

E você, leitor, o que acha das muralhas?